quarta-feira, 30 de junho de 2010

As instituições são mais importantes do que as pessoas?

Li em um blog a expressão: “…as instituições são muito mais importantes do que as pessoas”. Postei um comentário discordando da afirmação e o meu comentário não foi sequer publicado pelo moderador do blog (não vou citar a fonte por questão de ética).

Eu leio na Bíblia Deus criando todas as coisas, e depois de criar o mundo, Ele criou as pessoas. Veio então a primeira instituição, o casamento. Mas o texto se referia às instituições humanas, em forma de organizações, como é o caso das igrejas, convenções, associações, como as temos hoje. Tais instituições são importantes nas relações humanas, mas não estão acima das pessoas.

Deus olha para as pessoas e não para as instituições, esse é o meu entender! Jesus veio buscar e salvar pessoas e não instituições! “Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Lc 19.10). O que estava perdido era o ser humano e não as instituições! Aliás, foram as instituições religiosas  que mataram Jesus! Ele foi contra o sistema religioso que imperava entre os judeus, e isso o levou à morte. Evidentemente tudo estava no plano perfeito de Deus. Jesus não morreu por acaso, foi tudo planejado por Deus desde a fundação do mundo (Ap 13.8).

Instituições vêm e vão, mas as pessoas permanecem. Instituições não podem substituir as pessoas, mas as pessoas podem mudar as instituições. Creio até que há instituições nocivas às pessoas. Instituições que destroem a vida. Instituições que tiram a liberdade humana, que prendem o ser. Instituições que tolhem a liberdade de pensar, refletir, discordar, de se expressar. Tais instituições não merecem sequer existir. Devem ser desativadas, despojadas e lançadas no esquecimento.

Até mesmo a igreja, quando deixa de ser vista como um organismo vivo (o corpo de Cristo)  e se torna apenas uma instituição, não merece o título de igreja, e não devia continuar existindo. Há alguns anos atrás, lancei na convenção estadual de minha igreja uma idéia de se ministrar aos obreiros a diferença da igreja como organismo e organização. Creio que minha idéia foi adotada por um companheiro de ministério que lançou um seminário com o tema. É preciso realmente diferenciar isso!

Sou a favor do ser humano, da vida, da liberdade, do amor, da paz, da graça, da comunhão, da compaixão, da esperança! Mas sou contra todo tipo de instiuição que nega o lado humano ou que tenta anular a individualidade e a liberdade humana.

Viva as pessoas! E abaixo as instituições que se poem acima das pessoas!

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Ganhar almas?

Devo dizer que hoje em dia a expressão “ganhar almas” me deixa enervado em certo sentido. A Bíblia diz que “"O fruto do justo é árvore de vida, e o que ganha almas é sábio."  (Provérbios 11.30). Isso se aplica a ganhar almas para o Reino de Deus, levar pessoas a uma experiência de salvação, a Jesus Cristo, o Senhor e Salvador do mundo (se bem que no contexto de Provérbios tem mais a ver com o livrar vidas do perigo, cultivar a amizade e o companheirismo). No entanto, o que vemos hoje não é um verdadeiro ganhar de almas para Jesus, para o Reino de Deus, mas o interesse em encher as igrejas de pessoas, para que haja mais dízimos, mais ofertas, mais dinheiro nos cofres da igreja. Vejo com pesar alguns líderes dizerem “estas cadeiras (ou bancos) serão insuficientes com o tanto de pessoas que encherão a nossa igreja”, num ato de vaidade e ostentação, como quem dizendo: “um dia serei um líder de uma igreja bem grande, com muitos membros e todos verão o meu poder, que Deus está comigo!”. Ledo engano!

Na verdade, ganhar almas é um ato nobre e sublime que Deus concedeu aos seus filhos. Faz parte do IDE imperativo do Senhor Jesus aos seus discípulos. É o cumprimento da Grande Comissão! Mas ganhar almas não significa o que muitos entendem hoje. O entendimento de ganhar almas, em muitas igrejas, está restrito às pessoas que vão à frente na hora do apelo em um culto ou campanha evangelística. Dizem com muito orgulho: “tantas almas foram ganhas para a glória de Deus!”. Que coisa horrível! A ida de pessoas à frente de um pregador na hora do apelo para receberem a oração da salvação, não signfica necessariamente  “ganhar almas” para o Reino de Deus.  Fui líder de uma cruzada evangelística por algum tempo e durante esse tempo pude observar que nem todos os que vão à frente permanecem na igreja. De quem é a culpa? Da própria igreja.

Agora observemos as palavras de Jesus: “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos” (Mateus 28.19,20). Isto sim é ganhar almas! Fazer discípulos, batizá-los em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensiná-los a guardar todas as coisas que o Mestre nos mandou! Mesmo que esses discípulos não permaneçam em nossa igreja, mas que vivam conforme as verdades do evangelho de Cristo, servindo ao Senhor de coração, mesmo em outra igreja.

Se assim fizermos, seremos sábios e verdadeiros ganhadores de almas!

Se eu discordar de meu líder estarei pecando?

Muito se fala de autoridade ou cobertura espiritual, referindo-se ao pastor presidente (em algumas igrejas: bispo, apóstolo, missionário, etc.) como quem tendo o poder de abençoar ou amaldiçoar as pessoas. A obediência a  esses líderes deve ser sem questionamento, pois são “homens de Deus”, sendo “usados” por Deus para fazer a “vontade” de Deus na terra (bem, não vamos exagerar tanto, na igreja ou no ministério ao qual ele serve). É evidente que o poder de abençoar ou amaldiçoar alguém pertence ao próprio Deus: “E abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem” (Gn 12.3). Nenhum homem pode se colocar no lugar de Deus e requerer para si as prerrogativas divinas, ou mesmo dizer que está autorizado por Deus a fazer algo que não tem fundamento bíblico. É evidente também que há verdadeiros homens de Deus, que são realmente usados por Deus e que fazem a vontade de Deus.

Dito isto, vamos a pergunta da postagem. Devo dizer que o cristão é uma pessoa livre. E como seres livres podemos exercer a nossa liberdade em Cristo, respeitando, evidentemente, os limites impostos pela própria Palavra de Deus. Ninguém pode ou deve tolher a liberdade de um cristão e isto inclui a liberdade de expressão. Devo dizer também que a igreja é uma comunidade de pessoas que foram chamadas para servir ao Deus vivo e verdadeiro. É a “universal assembléia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus” (Hb 12.23). E numa comunidade, creio que a participação de cada membro é importante. Todos podem e devem participar ativamente das atividades de suas igrejas. Isto posto, o pastor ou líder dessa comunidade, como escolhido de Deus, deve liderar com moderação e amor, sabendo que está prestando um serviço ao Reino de Deus. Ele não é o dono da igreja, nem tampouco dos crentes. O pastor ou líder é um ser humano como qualquer outro. Nenhum líder é um super-homem! Nenhum líder é infalível! (até o Papa que dizem que é infalível, é falível). Liderar não é fácil e nem todos acertam nas tomadas de decisão. Assim, se um crente discordar de seu líder em algum ponto, estará exercendo um direito que lhe pertence. Veja bem, estou falando de discordar e não de desrespeitar, que é totalmente diferente. As igrejas que eu liderei (foram somente duas ao todo) sempre dei total liberdade aos crentes para discordarem de minhas decisões, pois podia acontecer de eles verem ou perceberem algo que eu não estava vendo ou percebendo. E devo dizer, que foi uma bênção! Sempre fui respeitado e quando alguém discodava de mim, o fazia com respeito, ponderação e moderação. Isso é característico dos verdadeiros cristãos. Portanto, não é pecado discordar de seu líder!

A pergunta desta postagem se torna relevante porque há igrejas em que o líder se ponhe como o senhor absoluto da verdade e não aceita que ninguém contradiga o que ele diz ou faz. Ele é o “ungido” de Deus naquele lugar, e quem o contradiz estará contradizendo o próprio Deus. Evidentemente que isso é um absurdo! É por isso que alguns crentes fazem a pergunta em questão. Na verdade o que falta nesses líderes que agem assim é humildade. Ou quem sabe são pessoas inseguras de si mesmas! Seja qual for o caso, os crentes não são obrigados a engulirem tudo o que lhes dão. Podem dizer não, sem medo de estarem pecando contra Deus. É claro que isso não se aplica às verdades bíblicas. Quanto à Bíblia, o crente é obrigado a obedecê-la, sem questionamentos (desde que interpretada corretamente, e não ao bel-prazer de quem quer que seja).

Assim, todos podem exercer sua liberdade em Cristo, até mesmo a liberdade de discordar!

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O perfeito amor lança fora o medo

“No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que teme não é aperfeiçoado no amor.” (1 João 4.18 ARA).

Tenho ouvido alguns pregadores aterrorizarem o povo de Deus ultimamente. São pregadores que chamam a atenção dos crentes para que tenham MEDO dos castigos de Deus. A fidelidade a Deus deve ser mantida por “medo”, porque se alguém transgredir os mandamentos divinos será castigo severamente.

Creio que os crentes vão para a igreja para serem edificados e fortalecidos espiritualmente. A palavra de Deus diz que “o que profetiza fala aos homens para edificação, exortação e consolação” (1 Co 14.3). E que melhor profecia há senão a exposição da genuína Palavra de Deus em nossos cultos? Mas o que vemos são palavras duras e pesadas, impondo medo sobre o povo de Deus. E isso tem causado um mal-estar terrível nas pessoas que vão a igreja para ouvirem mensagens de edificação, exortação e consolação. Há pessoas que vão uma vez e não voltam mais àquela igreja. Alguém poderá dizer que isso é o uso da “exortação”. Mas você já procurou saber o que significa EXORTAÇÃO? Vamos ao dicionário. O Michaelis define: “Exortação. e.xor.ta.ção. sf (lat exhortatione) 1 Ato ou efeito de exortar. 2 Palavras com que se procura reformar ou melhorar os atos, costumes ou opiniões de alguém. 3 Admoestação, advertência. 4 Conselho. 5 Estímulo, incitação. 6 Dir Apelo do juiz aos jurados para que profiram sua sentença de acordo com a consciência e os ditames da justiça. E. religiosa: discurso em estilo familiar, com que se exorta à devoção”. Pela definição da palavra vemos que exortar não tem nada a ver em causar medo nas pessoas ou deixá-las em pânico. Deus jamais desejou ou deseja que alguém o sirva baseado no medo. Até mesmo o que a Bíblia fala sobre “temer a Deus” não significa “ter medo de Deus”, mas sim ser reverente, devoto a Deus.

Desta forma, a base de nosso relacionamento com Deus deve ser o AMOR. Sem amor não há devoção, não há reverência, não há temor. O perfeito amor lança fora todo o medo. Não servimos a Deus por MEDO, mas por AMOR. Não pecamos porque temos medo dos castigos de Deus, mas porque O amamos de todo o nosso coração. Se amamos não temos medo, se temos medo não amamos.

No Antigo Testamento Deus agiu de forma “dura” com o povo de Israel, mas o objetivo final de Deus foi o que lemos em Dt 10.12 “Agora, pois, ó Israel, que é que o SENHOR teu Deus pede de ti, senão que temas o SENHOR teu Deus, que andes em todos os seus caminhos, e o ames, e sirvas ao SENHOR teu Deus com todo o teu coração e com toda a tua alma”. E é isso que Deus quer de nós cristãos hoje também!

Sim, meus irmãos, sirvamos a Deus de todo o nosso coração, por AMOR e não por medo!

sábado, 12 de junho de 2010

Ser pastor

Qual o sentido dessa palavra? Ser pastor! Uma afirmação tão pequena, mas repleta de tanto significado!
Ser pastor é muito mais que ser um pregador. Está além de ser um administrador de igreja. Muito além de professor ou conferencista. Ser pastor é algo da alma, não apenas do intelecto.
Ser pastor é sentir paixão pelas almas. É desejar a salvação de alguém de forma tão intensa, que nos leve à atitude solidária de repartir as boas-novas com ele. É chorar pelos que se mantém rebeldes. É pensar no marido desta irmã, no filho daquela outra, na esposa do obreiro, nos vizinhos da igreja, nos garotos da rua. Ser pastor é tudo fazer para conseguir ganhar alguns para Cristo.
Ser pastor é festejar a festa da igreja. É alegrar-se com a alegria daquele que conquista um novo emprego, daquele que gradua-se na faculdade, daquele que recebe a escritura da casa própria ou do outro que recebeu alta no hospital. Ser pastor é ter o brilho de alegria ao ver a felicidade de um casal apaixonado, ao ver o sucesso na vida cristã de um jovem consagrado, é festejar a conversão de um familiar de alguém da igreja por quem há tempos se vinha orando. Ser pastor é desejar o bem sem cobiçar para si absolutamente nada, a não ser a felicidade de participar dessa hora feliz.
Mas ser pastor também é chorar. Chorar pela ingratidão dos homens. Chorar porque muitas vezes aqueles a quem tanto se ajudou são os primeiros a perseguirem-nos, a esfaquearem-nos pelas costas, a criticarem-nos, a levantarem falso testemunho contra a igreja e contra nós. É chorar com os que choram, unindo-nos ao enlutado que perdeu um ente querido, é dar o ombro para o entristecido pela perda de um amor, é ser a companhia do solitário, é ouvir a mesma história uma porção de vezes por parte do carente. Chorar com a família necessitada, com o pai de um drogado, com a mãe da prostituta, com a família do traficante, com o irmão desprezado.
Ser pastor é não ter outro interesse senão o pregar a Cristo. É não se envolver nos negócios deste mundo, buscando riquezas, fama e posição. É saber dizer não quando o coração disser sim. É não ir à casa dos ricos em detrimento dos pobres. É não dar atenção demasiada para uns, esquecendo-se dos outros. É não ficar do lado dos jovens, em detrimento dos adultos e vice-versa. Ser pastor é não envolver-se em demasia com as pessoas, ao ponto de se perder a linha divisória do amor e do respeito, do carinho e da disciplina. Ser pastor é não aceitar subornos nem tampouco desprezar os não expressivos.
Ser pastor é ser pai. É disciplinar com carinho e amor, conquanto com a firmeza da vara, da correção e, não raras vezes, da exclusão de pessoas queridas. É obedecer a Bíblia, não aos homens. É seguir a Deus, não ao coração. Ser pastor é ser justo. Ser pastor é saber dizer não, quando a emoção manda dizer sim. Ser pastor é ter a consciência de não ser sempre popular, principalmente quando tiver que tomar decisões pesadas e difíceis, e saber também ser humilde quando a bênção de Deus o enaltecer diante do rebanho e diante do mundo. Os erros são nossos, mas a glória é de Deus.
Ser pastor é levantar-se quando todos estão dormindo e dormir quando todos estão acordados, socorrendo ao necessitado no horário da necessidade. Ser pastor é não medir esforços pela paz. É pacificar pais e filhos, maridos e esposas, sogros e genros, irmãos e irmãs. Ser pastor é sofrer o dano, o dolo, a injustiça, confiando nAquele que é o galardoador dos que o buscam. Ser pastor é dar a camisa quando lhe pedem a blusa, andar duas milhas quando o obrigam a uma, dar a outra face quando esbofeteado.
Ser pastor é estar pronto para a solidão. É manter-se no Santo dos Santos de joelhos prostrados, obtendo a solução para os problemas insolúveis. Ser pastor é não fazer da esposa um saco de pancadas, onde descontar sua fragilidade e cansaço. Ser pastor é ser sacerdote, mantendo sigilo no coração, mantendo em segredo o que precisa continuar sendo segredo, e repartindo com as pessoas certas aquilo que é "repartível".  Ser pastor é muitas vezes não ser convidado para uma festa, não ser informado de uma notícia ou ser deixado de fora de um evento, e ainda assim manter a postura, a educação, o polimento e a compaixão. Ser pastor é ser profeta, tornar o seu púlpito um "assim diz o Senhor", uma tocha flamejante, um facho de luz, uma espada de dois gumes, afiada e afogueada, proclamando aos quatro ventos a salvação e a santificação do povo de Deus.
Ser pastor é ser marido e ser pai. É fazer de seu ministério motivo de louvor dentro e fora de casa. É não causar à esposa a sensação de que a igreja é uma amante, uma concorrente, que lhe tira todo o tempo de vida conjugal. Ser pastor é amar aos seus filhos da mesma forma que ensina aos pais cristãos amarem aos seus. É olhar para os olhos de seus filhos e ver o brilho de seus próprios olhos. É preocupar-se menos com o que os outros vão pensar e mais no que os filhos vão aprender, sentir e receber. É ver cada filho crescer, dando a cada um a atenção e o amor necessários. É orgulhar-se de ser pai, alegrar-se por ser esposo, servir de modelo para o povo. E, quando solteiro, tornar a sua castidade e dignidade modelo dos fiéis, enaltecendo ao Senhor, razão de sua vida.
Ser pastor é pedir perdão. Se os pastores fossem super-homens, Deus daria a tarefa pastoral aos anjos, mas preferiu fazer de pecadores convertidos os líderes de rebanho, pois, sendo humanos, poderiam mostrar aos demais que é possível ser uma bênção. Mas, quando pecarem, saberem pedir perdão. A humildade é uma chave que abre todas as portas, até as portas emperradas dos corações decepcionados. A humildade pode levar o pastor à exoneração, como prova de nobresa e integridade, como pode fazê-lo retomar seus trabalhos com maior pujança e vigor. Há pecados que põem fim a um ministério e ser pastor é saber quando o tempo acabou. Recomeçar é possível, mas nem sempre. Ser pastor é saber discernir entre ficar ou sair, entre continuar pastor e recolher-se respeitosamente.
Ser pastor é crer quando todos descrêem. Saber esperar com confiança, saber transmitir otimismo e força de vontade. É fazer de seu púlpito um farol gigantesco, sob cuja luz o povo caminha sempre em frente, para cima e em direção a Deus. Ser pastor é ver o lado bom da questão, é vislumbrar uma saída quando todos imaginarem que é o fim do túnel. Ser pastor é contagiar, e não contaminar. Ser pastor é inovar, é renovar, é oferecer-se como sacrifício em prol da vontade de Deus. Ser pastor é fazer o povo caminhar mais feliz, mais contente, é fazer a comunidade acreditar que o impossível é possível, é fazer o triste ser feliz, o cansado tornar-se revigorado, o desesperado ficar confiante e o perdido salvar-se. As guerras não são ganhas com armas, mas com palavras, e as do pastor são as palavras de Deus, portanto, invencíveis.
Ser pastor é saber envelhecer com dignidade, sem perder a jovialidade. É ser amigo dos jovens e companheiro dos adultos. Ser pastor é saber contar cada dia do ministério como uma pérola na coroa de sua história. Ser pastor é ser companhia desejada, querida, esperada. É saber calar-se quando o silêncio for a frase mais contundente, e falar quando todos estiverem quietos. Ser pastor é saber viver. Ser pastor é saber morrer.
E quando morrer, deixar em sua lápide dizeres indeléveis, que expressem na mente de suas ovelhas o que Paulo quis dizer, quando estava para partir: "combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé". Ser pastor é falar mesmo depois de morto, como o justo Abel e o seu sangue, através de sua história, de seu exemplo, de seus escritos, de suas gravações. Ser pastor é deixar uma picada na floresta, para que outros venham habitar nas planícies conquistadas para o Reino do Senhor. Ser pastor é fazer com que os filhos e os filhos dos filhos tenham um legado, talvez não de propriedades, dinheiro ou poder político, mas o legado do grande patriarca da família, daquele que viveu e ensinou o que é ser um pastor.
Eu sou pastor.
Obrigado, Senhor!

Pr. Wagner Antonio de Araújo

Igreja Batista Boas Novas de Osasco, SP

bnovas@uol.com.br

O pastor segundo o Salmo 23

O salmo 23 nos fornece algumas características interessantes sobre a função pastoral. Evidentemente o salmista, por experiência própria, sabia o que era ser um pastor genuíno. Tendo isso em sua mente, ele aplica as características de um bom pastor ao próprio Deus, “o Senhor é o meu pastor”. Vejamos como deve ser um bom pastor:
“Nada me faltará”. O bom pastor é providente, não deixa a ovelha ficar desnutrida em todos os sentidos. Mas vejo aqui a providência com respeito ao bem-estar espiritual das ovelhas. Tratá-las com dignidade, providenciando-lhes um ambiente agradável, para que possam ser produtivas.
“Deitar-me faz em verdes pastos”.  O bom pastor tem sempre uma comida nova e adequada às suas ovelhas. Não as conduz a pastos secos, sem alimento. Isto fala de conhecimento da Palavra de Deus, intimidade, afinidade, manejar bem a Palavra da verdade. O pastor que não tem conhecimento adequado da Palavra de Deus não pode de forma alguma ser um bom pastor. Quantos pastores falham nisso! Se apegam a costumes, a coisas temporais e se esquecem do genuíno alimento espiritual, não falsificado, que realmente alimenta e traz crescimento as ovelhas.
“Guia-me mansamente a águas tranquilas”. O bom pastor produz segurança e tranquilidade às ovelhas. Guia-as com brandura, com espírito serviçal, não com ganância ou torpeza. Assim as ovelhas não sentem sede e não precisam procurar água em outras pastagens. “Águas tranquilas”, ou seja, não há turbulência, disputas, invejas, enganos. É tudo tranquilo, calmo, sereno. Quanta paz há aqui!
“Refrigera a minha alma”. Ó quanto refrigério sente a ovelha bem cuidada. Ela se sente em paz, em segurança. O louvor, a adoração fluem naturalmente pela gratidão do coração, por saber que tem um pastor que zela por ela.
“Guia-me pelas veredas da justiça”. Tratar justamente as ovelhas é sem dúvida uma condição essencial do pastor. Aqui não há acepção de pessoas. Ninguém é tratado diferente por posição social ou “status”. Não há privilegiados, todos são irmãos e tratados da mesma forma. A justiça exige isso. Quanta injustiça se tem praticado em alguns pastos (igrejas)!
“Tua vara e teu cajado me consolam”. Cajado é para ovelhas, vara é para os lobos. Alguns pensam que vara e cajado são para as ovelhas. Quanto engano! Vara e cajado são instrumentos de consolo e não de tristeza ou pesar! Há pastos em que as ovelhas já não aguentam mais tanta vara! Não tem cajado. Cajado é para puxar a ovelha, para garantir-lhe a segurança. Já a vara é para afugentar os lobos, os devoradores. Nos dias em que vivemos as pessoas vivem afligidas pelos problemas da vida e quando vão a igreja é para receberem uma palavra de conforto, de segurança, de esperança, de alegria, mas infelizmente em alguns lugares recebem palavras tão pesadas que voltam para casa entristecidas e ficam piores que antes, melhor lhes fora não terem ido àquele pasto.
“Preparas uma mesa perante mim”. Mesa farta, mesa de abundância. O inimigo é afugentado! Não há chance para ele.
“Unges a minha cabeça com óleo”. Cuidado com a saúde espiritual. Providência. Alegria, transbordar, deleite! Como é bom viver num pasto assim!
Desta forma, “a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na casa do SENHOR por longos dias”. Há prazer em se estar na casa do Senhor!
Que Deus nos dê bons pastores!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Servir ou ser servido?

image "Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos."  (Mateus 20.28).

Fico a imaginar o que está acontecendo com os chamados servos de Deus de hoje.

A palavra “servo” nos fala de alguém que está debaixo de uma serventia. O dicionário online Priberam define servo como: 1. Aquele que não dispõe da sua pessoa, nem de bens. 2. Homem adstrito à gleba e dependente de um senhor. ≠ suserano. 3. Pessoa que presta serviços a outrem, não tendo condição de escravo. = criado, servente, serviçal. 4. Pessoa que depende de outrem de maneira subserviente. 5. Que não tem direito à sua liberdade nem a ter bens. ≠ livre. 6. Que tem a condição de criado ou escravo. 7. Que está sob o domínio de algo ou alguém.

Portanto, servo é chamado para servir. Nada mais, nada menos. Para mim é uma aberração alguém ser chamado de  “grande servo de Deus”. Se é grande não é servo e se é servo não pode ser grande. Mas para muitos ser chamado de “grande servo de Deus” é motivo de orgulho, de ostentação, de destaque. O mais complicado é quando os chamados “servos” querem ser servidos, ao invés de servirem. É o caso de certos pastores que querem que os membros de suas igrejas os sirvam, como ser eles fossem reis ou pessoas especiais porque se ocupam dos encargos do Reino de Deus na congregação aonde foram chamados para “”servir”. Afinal, esses são os “ungidos de Deus” e devem ser reverenciados como tais. Uma verdadeira aberração e deturpação da palavra “servo”. (Leia também minha postagem “O que é autoridade espiritual?”).

Mas quando olhamos para Jesus Cristo, o nosso modelo e exemplo de servo, vemos algo totalmente diferente do que advogam esses  “servos de Deus”. O Filho do Homem não veio para ser servido, e olhe que Ele bem merecia e devia ser servido, visto que se tratava do próprio Deus encarnado. Mas não, Ele veio para servir e dar a sua vida em resgate de muitos!

Um grande exemplo de servo que Jesus nos dá, além de sua total submissão à vontade do Pai, foi ter lavado os pés de seus discípulos momentos antes da sua crucificação, e ainda perguntou a eles “vocês entenderam o que lhes fiz?”, como quem querendo deixar bem claro a lição ali ensinada. Ele era o Mestre e Senhor e tinha lavado os pés dos discípulos, assim eles deveriam lavar os pés uns dos outros. Coisa que muitos “servos” de hoje não querem fazer!

Seguir o exemplo do Mestre é buscar, não os seus próprios interesses, mas os do Reino de Deus. É servir de exemplo para os fiéis, na palavra, no trato, no amor, no espírito, na fé, na pureza (1 Timóteo 4.12). É servir a congregação de modo simples, verdadeiro, sincero, pois fazendo isso, o Reino de Deus cresce, as pessoas são edificadas e as almas são salvas. Haverá também o reconhecimento dos fiéis. Todos se espelharão no servo que tem. Todos procurarão imitá-lo, pois este será o imitador do próprio Cristo!

Que Deus nos ajude a sermos verdadeiros “servos de Deus”!

terça-feira, 8 de junho de 2010

As Perigosas Doutrinas de Dake

Por: Jeff e Steve Spencer Bright

Este artigo apareceu pela primeira vez no Christian Research Journal, Volume 27, número 5 (2004). Para maiores informações ou para subscrever no Christian Research Journal vá para: http://www.equip.org

SINOPSE

Os ensinamentos de Finis Jennings Dake, autor da “The Dake Annotated Reference Bible” (*lançada no Brasil pela CPAD como Bíblia de Estudo DAKE), tiveram um profundo impacto no Pentecostalismo conservador e tem sido adotados por pregadores carismáticos da Confissão Positiva, como Kenneth Copeland e Benny Hinn. Os pontos de vista de Dake vão desde ortodoxos a bizarros, a decididamente não ortodoxos. Ele rejeitou a teologia do "denominacionalismo" e ao invés disso adotou uma interpretação hiperliteral das Escrituras, o que resultou em doutrinas erróneas, tais como a visão de que cada pessoa da Trindade tem um corpo, alma e espírito, e que o corpo ressuscitado de Jesus não era físico. Seus ensinamentos aberrantes também incluem a salvação pela graça mais as obras e um evangelho da saúde e da prosperidade. Os materiais de estudo de Dake enfatizam a autoridade da Bíblia, mas eles contêm muitas doutrinas antibíblicas e perigosas, que às vezes têm muito em comum com as seitas e não com a teologia cristã histórica.

Cada denominação cristã pode apontar para certos pregadores e ensinadores que ajudaram a moldar e a propagar a sua teologia e prática. Uma dessas figuras proeminente nos círculos carismáticos e pentecostais é Finis Jennings Dake (1902-1987), o autor da Bíblia de Estudo Dake. O Dicionário dos Movimentos Pentecostais e Carismáticos declara, “o impacto de Dake no pentecostalismo conservador não pode ser mais amplo.1

Uma Breve Biografia

Depois de sua conversão ao cristianismo com a idade de 17 anos, em Tulsa, Oklahoma, Dake alegadamente recebeu uma “unção especial” que lhe permitia citar centenas de versículos das Escrituras, sem tê-los previamente memorizado, o que lhe valeu o apelido de "O Bíblia Ambulante”. Ele estudou a Bíblia diligentemente e alegou ter despendido cerca de 100 mil horas ao longo de seu ministério, aprofundando-se em seus ensinamentos.2

Dake começou a pregar em 1925, e foi ordenado pelas Assembleias de Deus, dois anos depois, com a idade de 24 anos.3 Depois de trabalhar como pastor e evangelista no Texas e em Oklahoma, mudou-se para Zion, Illinois, para se tornar pastor da Igreja Cristã Assembleia, uma união que durou até 1937.4 Em Zion, ele também fundou o Instituto Bíblico Siló, que ultimamente fundiu-se com o Intituto Bíblico Central, localizado na casa que fora de propriedade do controversial curandeiro John Alexander Dowie.5

Durante o ministério de Dake em Zion, ele foi o centro de uma série de controvérsias. Em 1937, ele foi condenado por violar a Lei “Mann”, por ter propositalmente transportado uma adolescente de 16 anos, Emma Barelli, em todo o percurso do estado de Wisconsin "para o propósito de orgias e outras práticas imorais.”6 Dake se declarou culpado e foi sentenciado a seis meses na prisão de Milwaukee7, onde “pretendeu passar a maior parte do seu tempo ... escrevendo um livro – um comentário sobre a Bíblia.”8

Dake voltou para a sua família e para a Igreja Cristã Assembleia, que estiveram ao seu lado e mantiveram a sua inocência durante a sua provação. Seu relacionamento com as Assembléias de Deus, entretanto, logo acabou (*cassaram-lhe a sua credencial). Ele então se mudou para Cleveland, Tennessee, onde, inicialmente, tornou-se ministro da Igreja de Deus, e, em seguida, pastoreou uma igreja pentecostal independente.9 Dake manteve-se um ministro pentecostal até a sua morte em 1987, de mal de Parkinson.10

OS ESCRITOS DE DAKE

A longa carreira de Dake culminou com duas obras publicadas: “God’s Plan for Man: The Key to the World’s Storehouse of Wisdom” (O plano de Deus para o homem: A Chave para o armazém do Mundo da Sabedoria) que contém o coração dos seus ensinos. Esse curso de 52 lições propõe-se a ser “uma biblioteca de conhecimentos bíblicos de forma compacta ... mais de 10.000 tópicos, esboços de sermões, e perguntas respondidas completamente - todos apoiados e comprovados por 33 mil referências a passagens das Escrituras.”11 A obra mais popular de Dake é a Bíblia de Estudo Dake, que muitos pentecostais americanos consideram ser a mais completa bíblia de estudos.12 Suas notas e comentários são feitas no texto da versão da bíblia “King James” (Rei Tiago) e são tirados, em grande parte, do “Plano de Deus para o Homem”. O Dicionário dos Movimentos Pentecostais e Carismáticos afirma que ela “se tornou o ‘pão e manteiga’ de muitos pregadores proeminentes e a ‘matéria-prima’ de congregações pentecostais.”13 A “Dake Publishing Company”, operada pela família Dake, vende cerca de 40.000 exemplares da Bíblia Dake a cada ano.14 Finis Dake, Jr., afirma: “Até onde eu sei esta é a única Bíblia de Estudo com um evangelho integral ou orientação carismática ainda em impressão, que não mudou coisa alguma no sentido de atrair um público do mais variado.”15

Muitos ensinadores pentecostais e carismáticos americanos louvam a obra de Dake. Jimmy Swaggart uma vez escreveu: “Finis Dake era um estudioso ímpar. Eu devo a minha educação bíblica a este homem.”16 O pregador da Confissão Positiva Larry Ollison, diretor Regional do Centro-Oeste da Convenção Internacional dos Ministérios da Fé, elogia a Bíblia Dake como uma boa ferramenta de referência com “listas e informações úteis que não são encontradas facilmente em nenhum outro lugar.”17 David Roebuck, diretor do Centro de Pesquisa Pentecostal da Universidade Lee, declara: “A Bíblia de Estudo Dake tem muitas ferramentas e gráficos úteis.”18 Os principais mestres da Confissão Positiva, como Kenneth Copeland, Kenneth Hagin e Benny Hinn também adotaram a Bíblia de Estudo Dake e seus ensinamentos.

A BÍBLIA

Dake, para seu crédito, argumenta que a Bíblia é a inspirada, inerrante e autorizada Palavra de Deus e, portanto, não pode conter contradições. Seu esforço para sistematizar os ensinamentos bíblicos sobre centenas de temas parece ser sincero. Ele argumenta que a Bíblia foi escrita numa linguagem humana simples, e deve ser interpretada da mesma forma: “Devemos deixar o que Deus diz significar o que Ele diz e rejeitar qualquer teoria dos homens contrária.”19 A regra imperativa de interpretação de Dake é: “Tome cada declaração da Bíblia como literal quando ela é possível e onde é claro que é literal, caso contrário, ela é figurativa.”20 Dake aplica esta regra repetida e constantemente, e sua interpretação simples e literal, provavelmente, contribui para a popularidade de seu comentário bíblico. Sua atenção ao texto bíblico resulta em muitas observações e interpretações corretas, porém, sua abordagem demasiadamente simplista e hiperliteral resultam em muitas interpretações incorretas, bem como nas não ortodoxas e problemáticas doutrinas de sua teologia.

Vários estudiosos e apologistas evangélicos da Bíblia têm manifestado preocupação com os ensinamentos não ortodoxos de Dake, mas nenhuma grande obra foi publicada para os expor e os corrigir. A popularidade de Dake, entretanto, exige uma avaliação de seus ensinamentos, à luz da ortodoxia cristã histórica. Este artigo aborda apenas alguns aspectos.

A NATUREZA DE DEUS

Muitos dos erros doutrinários de Dake começam com a sua incompreensão da natureza de Deus. Ele afirma: “Deus tem um corpo-espírito com partes corporais como o homem.21 A única diferença entre o corpo de Deus e do homem, de acordo com Dake, é que o corpo de Deus é uma substância espiritual enquanto que o corpo do homem é uma substância material. Ele apresenta várias linhas de raciocínio falho para apoiar a sua opinião. Em primeiro lugar, ele argumenta já que o corpo natural se tornará um corpo espiritual, isto significa que os seres-espíritos têm corpos:

Paulo fala do corpo de carne e osso do ser humano na ressurreição como sendo “espiritual” (1 Co 15.42-44), e como o “seu corpo glorioso” (Lc 24.39; Fp 3.20,21), assim, se os corpos humanos que se tornam espiritualizados ainda são materiais e tangíveis, então certamente Deus e outros espíritos podem ter corpos tão reais e ainda serem seres espíritos. Afinal, João 4.24 é uma mera declaração de fato - que Deus é Espírito - mas não define e nem analisa um espírito.22

1 Coríntios 15.42-44, no entanto, não se refere à natureza de Deus, mas à natureza do corpo humano ressuscitado. “Corpo espiritual”, aliás, neste contexto, não significa um corpo feito de substância espiritual, e sim, significa que o corpo físico, material e de carne e osso que ressuscitará, feito imortal e imperecível não será mais dominado pela carne (isto é, pela natureza pecaminosa), mas pelo Espírito.

Dake também argumenta desde que os humanos foram criados à imagem de Deus e têm corpos, Deus deve ter um corpo também: “Se o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus corporalmente, então Deus deve ter um corpo, uma aparência e forma exterior.”23 Os mórmons seguem o mesmo argumento. É falso, no entanto, supor que porque nós somos como Deus, Deus deve ser como nós. Norman Geisler e Ron Rhodes explicam, “Só porque todos os cavalos têm quatro patas não significa que todas as coisas de quatro patas são cavalos. E só porque Deus fez macho e fêmea não significa que ele seja macho e fêmea. ‘Deus é Espírito’ (João 4.24), mas ele fez as pessoas com corpos (Gn 2. 7). Só porque temos um corpo físico não significa que Deus tem um também.24

Dake assevera que a Bíblia fala claramente de Deus como tendo um rosto, mãos, olhos, braços, pernas e outras partes do corpo, tal como qualquer outra pessoa.25 Ele reconhece que a Bíblia às vezes usa uma linguagem que, obviamente, é figurativa, como quando ela diz que Jesus é “a porta” (João 10.7), no entanto, com base na sua regra de “tomar a Bíblia literalmente sempre que possível”, ele sustenta que as passagens que atribuem partes do corpo humano a Deus devem ser interpretadas literalmente. Em outras palavras, ele acredita que é possível Deus ter um corpo e, portanto, interpreta estas passagens literalmente.

Há um problema com esta abordagem simplista: se é possível Deus ter um corpo é uma questão filosófica que deve ser respondida antes de se interpretar passagens que falam das partes do corpo de Deus. É semelhante à questão se Deus pode mentir: se é possível Deus mentir (e Ele não pode por causa da Sua natureza) é uma questão que deve ser respondida antes de se interpretar a declaração bíblica: “Deus não pode mentir”. Esta não pode ser respondida com base na declaração bíblica apenas, porque é logicamente possível que Deus tenha mentido nessa declaração.

Muitos argumentos filosóficos provam que Deus não pode ter um corpo. Por exemplo, se Deus tem um corpo que é composto de partes, então ele deve ter sido composto (isto é, criado, montado) por outro ser superior a Si mesmo, porque Ele não poderia ter composto a Si mesmo. Em outras palavras, se Deus tem um corpo, ele não é realmente Deus. Outro argumento é que os corpos existem no espaço e no tempo, mas, Deus criou o espaço e o tempo e, portanto, ele deve existir para além do espaço e do tempo. Deus, portanto, não pode ter um corpo.

O ponto central desses argumentos é que é logicamente impossível para Deus ter um corpo por causa da sua natureza (ou seja, o que Deus é). Um corpo é limitado, temporal, mutável, visível, material, composto de partes, e presente em apenas um local de cada vez, ao passo que Deus é ilimitado, eterno, imutável, invisível, imaterial, não composto de partes, e sempre presente em toda parte. Portanto, Deus não pode ter um corpo (isso não quer dizer que uma das pessoas da Trindade não poderia assumir, ou adicionar um natureza humana que inclui um corpo material, como é o caso de Jesus, que agora tem duas naturezas: divina e humana).

Se é logicamente impossível para Deus ter um corpo, então as passagens que falam das partes do corpo de Deus não podem ser interpretadas literalmente, elas devem ser interpretadas no sentido figurado. Quando os autores bíblicos atribuem características humanas a Deus, eles estão usando uma figura de linguagem chamada antropomorfismo. Isso significa que eles estão se referindo a Deus em termos das partes do corpo humano ou paixões. Falando figurativamente das mãos de Deus, dos olhos, da raiva, ou até mesmo do amor, ajuda o homem finito a compreender as verdades sobre um Deus infinito e da forma como Ele age. O teólogo Lewis Sperry Chafer comenta, “onde membros físicos são, portanto, atribuídos a Deus, não é uma afirmação direta de que Deus possui estes membros, ou um organismo corporal [físico] com suas partes, mas que Ele é capaz de fazer exatamente as mesmas coisas que são as funções da parte física do homem.”26

Se todas as características que são atribuídas a Deus na Bíblia forem tomadas literalmente, poder-se-ia ter a idéia absurda de Deus como tendo asas e penas (Sl 17.8), sendo feito de pedra (Sl 18.31), ou ter olhos que literalmente “passam por toda a terra” (2 Cr 16.9). Dake reconhece que atribuir literalmente características de aves ou de pedras a Deus resulta em conclusões absurdas, no entanto, ele não reconhece que atribuir literalmente características humanas a Deus resulta também em conclusões absurdas. Ao tomar passagens antropomórficas literalmente, Dake negou a doutrina cristã histórica de Deus. Assim, ele faz parte dos que “mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível” (Rm 1.23 ACF).

A TRINDADE

Dake define a Trindade como “a união de três pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo em uma divindade (unificada), de modo que todas as três pessoas são um em unidade e substância eterna, mas três pessoas distintas e separadas como a individualidade.27 Esta declaração é semelhante as definições cristã históricas da Trindade, como nos credos antigos, mas a visão de Dake da Trindade claramente não é a mesma da visão cristã histórica.

A visão cristã histórica da Trindade - que Deus é um ser constituído por três pessoas – é “no mínimo, tola e sem base escriturística", diz Dake.28 Ele afirma, é uma falácia “que só exista uma única pessoa ou um ser chamado Deus.”29 Dake diz que a Trindade são três pessoas separadas e distintas em um só Deus, no entanto, ele define pessoa como “um ser racional com presença corporal, paixões da alma, e as faculdades do espírito.”30 Na sua opinião, PESSOA e SER significam a mesma coisa. Ele conclui, portanto, que a Trindade são três seres separados e distintos, cada um com um corpo, alma e espírito: “O que queremos dizer por Trindade Divina é que existem três pessoas distintas e separadas na divindade, cada uma tendo o seu próprio corpo-espírito, alma pessoal e espírito pessoal, no sentido de que cada ser humano, anjo, ou qualquer outro ser tem seu próprio corpo, alma e espírito.”31

Essa caracterização da Trindade como três seres separados é diferente da visão cristã histórica de que a Trindade são três pessoas distintas, que estão unidas em uma essência ou substância - em outras palavras, um SER. Quando Dake diz que “todas as três pessoas são uma em unidade e substância eterna”, significa três seres separados que estão em uma unidade ou propósito. É verdade que todas as três pessoas da Trindade são um em propósito, mas a visão cristã histórica é que “um em substância” significa um em ser (essência ou natureza). Em outras palavras, a Trindade são três pessoas, que são um ser.

O Credo de Atanásio (c. AD 361) foi escrito em parte para defender o entendimento ortodoxo da Trindade contra um erro conhecido como triteismo, o qual diz que a Trindade são três deuses separados. O Credo declara: “Adoremos um único Deus em Trindade, e a Trindade em Unidade, não confundindo as Pessoas, nem dividindo a Substância.”32 Trinitarianos tem historicamente compreendido que Substância aqui quer dizer Essência ou Ser, não propósito como Dake argumenta.

Trinitarianos, além disso, não entendem ser como signficando a mesma coisa que pessoa, como argumenta Dake, caso contrário, a Trindade seria três seres infinitos e perfeitos. O teólogo Henry Thiessen salienta, “só pode haver um ser infinito e perfeito. Postular dois ou mais seres infinitos é ilógico e inconcebível”.33 Uma razão porque não pode haver dois ou mais seres infinitos e perfeitos é porque eles teriam que diferir uns dos outros de alguma forma, e diferir significa que em cada ser deve faltar alguma coisa que os outros têm; no entanto, se lhes falta alguma coisa, eles não são seres infinitos e perfeitos e, portanto, só pode haver um ser infinito e perfeito.

Muitas das declarações de Dake a respeito da Trindade são semelhantes às clássicas declarações Trinitarianas, mas a sua opinião não é a mesma da visão cristã histórica, se fosse a mesma, ele certamente não teria chamado a visão cristã de tola e não escriturística.

JESUS CRISTO

O equívoco de Dake sobre a natureza de Deus, também resulta em uma problemática visão da natureza de Jesus. Ele ensina, por exemplo, que Jesus se tornou o Filho de Deus na Sua encarnação34 (a tese defendida pelas Testemunhas de Jeová e conhecida como adocionismo) e que Jesus se tornou o Messias em seu batismo35 (Veja, no entanto, Lc 2.11 e Mt 2.4). Estas opiniões foram rejeitadas pela maioria da igreja ao longo da história. Seus pontos de vista mais preocupantes, porém, referem-se a encarnação e a ressurreição de Jesus.

Dake argumenta, como acima referido, que antes da encarnação, o Filho (Jesus) tinha um corpo-espírito, assim como o Pai e o Espírito; no entanto, ele diz que quando Jesus veio à Terra, ele trocou seu corpo-espírito por um corpo humano: “Ele colocou de lado o seu corpo de Deus para ter um corpo humano, Sua imortalidade no corpo para se tornar mortal.”36 A ressurreição de Jesus, na visão de Dake, foi o retorno a um corpo espiritual, o mesmo tipo de corpo que os crentes receberão na sua ressurreição. Dake afirmou: "Assim como os corpos ressuscitados de carne e osso dos santos são chamados de “espirituais” (1 Co 15.44), e os corpos espirituais são substâncias materializadas e espiritualizadas - algo que não conhecemos, porque não temos experiência no momento presente.”37 Este tipo de corpo espiritualizado, argumenta ele, permitiu que Jesus (assim como acontecerá conosco) passar por portas (João 20.26), aparecer e desaparecer à vontade (Lc 24.31) e mudar de forma (Marcos 16.12).

Há várias razões para se rejeitar a visão de Dake de que o corpo ressuscitado do homem não será físico (ou seja, material). Em primeiro lugar, a Escritura ensina que o corpo ressuscitado de Jesus era o mesmo corpo físico que entrou no túmulo. Jesus declarou aos judeus, por exemplo, “Derribai este templo, e em três dias o levantarei.”(João 2:19, o grifo é nosso). João explicou: “Ele falava do templo do seu corpo” (v. 21). Em outras palavras, o corpo que saiu da sepultura era o mesmo que foi para dentro.

Em segundo lugar, de acordo com Pedro, Davi previu que o corpo de Jesus não veria a corrupção no túmulo (Atos 2.30-31; cf. Sl 16.10). Não haveria razão para Deus preservar o corpo físico de Jesus, se este seria trocado por um corpo diferente e espiritual.

Em terceiro lugar, muitas das aparições de Jesus pós-ressurreição nos evangelhos enfatizam a natureza física do seu corpo ressuscitado: tinha carne e ossos (Lucas 24.39), tinha as feridas da crucificação (João 20.27), ele comeu o alimento (Lucas 24.41-43), e foi reconhecido e tocado fisicamente por seres humanos (Mt 28.9, Lucas 24.39, João 20.17, 27).38 Os Evangelhos atestam que o corpo de Jesus, que surgiu e apareceu aos discípulos e a outras testemunhas era o mesmo corpo físico que foi crucificado.39

Dake reconhece o forte apoio bíblico que o corpo ressuscitado de Jesus era (e é) físico de carne e ossos. Ele argumenta vigorosamente, no entanto, com base em sua visão do “corpo espiritual” de 1 Coríntios 15, que o corpo de Jesus foi de “substância materializada e espiritualizada.” Uma "substância materializada e espiritualizada", no entanto, é uma contradição de termos; aliás , a expressão “corpo-espírito”, como definida por Dake, é o mesmo que dizer “material imaterial”, que também é uma contradição de termos. Uma coisa é material ou imaterial - não existe meio termo.

NATUREZA DE JESUS ENQUANTO NA TERRA

Paulo diz que Jesus "esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens" (Fp 2.7). Isto é conhecido como a passagem kenosis, que vem de um verbo grego que significa “esvaziar”. A pergunta é: o que significa “esvaziou-se”, e do que Jesus esvaziou-se enquanto na Terra?

Rhodes explica, “a declaração de Paulo ... envolve três questões básicas: o encobrimento da glória [de Cristo] preincarnada, a não utilização voluntária de alguns de seus atributos divinos, e a condescendência envolvida em assumir a semelhança dos homens”.40 Jesus “esvaziou-se” voluntariamente, por limitar a utilização de alguns dos seus atributos divinos, enquanto na terra, mas em nenhum momento ele deixa de possuí-los.

Dake argumenta, porém, que Jesus não possuía os seus atributos divinos na Terra. Ele explica: “As limitações de Cristo em conhecimento e sabedoria não podem ser explicadas e harmonizadas com o fato de que Cristo tinha onisciência [conhecimento ilimitado]. Suas limitações em poder e sua impotência para agir e fazer as coisas em si mesmo não podem ser harmonizadas com o fato de que Ele tinha o seu atributo original de onipotência [poder ilimitado] .... Cristo esvaziando-se, na realidade, inclui a retirada de seus atributos e poderes, ou pelo menos, limitações deles em tornar-se homem.”41 Dake diz que Jesus “não poderia ter mantido a imutabilidade.”42 Finalmente, Dake afirma que Jesus se tornou desigual de Deus: “Se ele não tivesse deixado de lado a Sua igualdade como Deus, então Ele não poderia ter sido desigual de Deus como manifestado nos dias da sua carne.”43

Há uma série de problemas com a visão de Dake. Primeiro, o fato de que Jesus não saber ou não fazer alguma coisa não significa que Ele não pudesse saber ou fazer. Uma pessoa pode optar por não abrir a porta para ver quem está batendo, mas isso não significa que a pessoa não tem o poder para fazê-lo. Em várias declarações, Dake parece deixar espaço para o ponto de vista de que Jesus meramente escolheu não usar seus atributos divinos, mas essa visão exige que Jesus possuía os seus atributos divinos, o que é incompatível com muitos dos argumentos de Dake de que Ele não os possuía.

Em segundo lugar, sem os Seus atributos divinos, Jesus não pode ser Deus. Isto é porque Deus é um ser perfeitamente simples, ou seja, Ele não é composto de partes, o que significa que seus atributos e sua natureza são uma e a mesma coisa. Deus não apenas tem o atributo de onipotência, por exemplo, ele é onipotência. Em outras palavras, Deus sem um de Seus atributos não é Deus. A natureza de Deus, além disso, é imutável (não muda), o que significa que Ele não pode mudar e tornar-se diferente do que Ele é. Por exemplo, Deus não pode mudar de ser ilimitado em poder para ser limitado em poder. Também é ilógico dizer, como faz Dake, que Jesus mudou de ser imutável (que não muda) para ser mutável (que muda).

Por último, dizer que Jesus deixou de lado a “sua igualdade como Deus” vai contra às suas reivindicações de ser (igual a) Deus e, ao invés disso, concorda com os fariseus, que disseram que Ele, sendo um homem, fazia-se falsamente Deus (João 10.30-33).

No encarnação (quando Cristo “tornou-se humano”), a natureza de Cristo não mudou de divina para humana, mas sim, a segunda pessoa da Trindade assumiu a natureza humana além de Sua natureza divina. Jesus Cristo, o Deus-Homem, possui duas naturezas distintas e separadas em Sua pessoa. Esta doutrina foi exposta no Concílio da Calcedônia (451 dC). A encarnação, portanto, não requer de Jesus a desistência de Sua natureza divina ou atributos. Qualquer limitação que Ele tinha pode ser aplicada tanto à Sua natureza humana (por exemplo, seu corpo físico não poderia estar presente em todos os lugares ao mesmo tempo) quanto à Sua escolha de não exercer certos atributos de Sua natureza divina, os quais Ele possuia integralmente mesmo estando na Terra.

A visão de Dake de que Jesus manteve a sua natureza divina, mas desistiu de muitos atributos que faziam parte dessa natureza é contraditória. Isso revela uma incompreensão da natureza divina e compromete a própria divindade de Jesus, na qual ele afirma acreditar.

SALVAÇÃO E OBRAS

A visão de Dake sobre a salvação é uma outra área problemática. Por um lado, ele afirma que a salvação é pela graça e não por obras: “A vida eterna é um dom gratuito... Os homens merecem o inferno, e não a vida eterna. Jesus Cristo sozinho a proporcionou e a dar livremente a todos os que crêem.”44 Ele também diz que é somente pela fé e não pelas obras: “A lei das obras não pode perdoar .... Somente a fé em Cristo perdoará e cancelará a pena da morte.”45

Por outro lado, ele nega categoricamente que a graça sozinha seja suficiente para a salvação: “É verdade que a graça não pode ser... misturada com a lei das obras, mas isto não prova que não haja condições que os homens devem respeitar a fim de obter os benefícios da graça. Nenhuma Escritura ensina uma graça incondicional.”46 Ele afirma: "A graça não pode desculpar e ignorar a falha do homem salvo em atender as várias condições para a salvação.”47 Ele enumera, por exemplo, “duas coisas são necessárias para que alguém seja salvo de todos os pecados, e somente duas”,48 “três coisas que os homens devem fazer e continuar fazendo para receberem a vida eterna”,49 “sete condições para a salvação eterna”,50 e "23 condições para a vida eterna.”51 Em um comentário, ele diz, "Há 1.050 mandamentos no NT para o cristão obedecer .... Se obedecidos, eles trarão ricas recompensas aqui e para sempre; se desobedecidos, eles trarão condenação e punição eterna.”52

Na opinião de Dake, a graça pode anular a condenação somente se alguém permanecer livre do pecado. Em uma seção listando "30 coisas que a graça não pode fazer", ele afirma: "A falácia moderna de que o perdão judicial abrange todos os pecados passados, presentes e futuros, que Deus não imputa os pecados aos crentes, e que Deus nunca condena um homem salvo por quaisquer pecados cometidos, mas debita-os ao Senhor Jesus Cristo, é uma das teorias mais antibíblicas e inspiradas por demônios em qualquer igreja.”53

De acordo com Dake, a justificação, o ato inicial de Deus pelo qual Ele declara o crente pecador justo, é mantida por obedecer certas condições e por não pecar: “todo ato de obediência é um ato de fé e as obras combinadas para manter a justificação diante de Deus.”54 Ele afirma em outro lugar que um crente que peca pode perder a sua salvação e novamente ser condenado: “Um homem perdoado de seus pecados passados deve abandonar o pecado. Se ele comete os mesmos pecados novamente, após a conversão, ele será novamente cobrado por eles. Eles devem ser devidamente confessados e perdoados novamente, ou ele vai pagar a pena da morte pelos novos crimes.”55

Dake falha de clara e consistentemente ensinar que a salvação (justificação) é pela graça somente, através da fé somente, independente das obras - duas das doutrinas centrais da Reforma Protestante. Ele afirma que a salvação é pela graça mediante a fé, mas ele também ensina que a obediência e a confissão dos pecados são necessários para receber e manter a justificação. Este é um confuso evangelho da graça mais as obras. A Escritura, no entanto, ensina que a única condição que uma pessoa deve cumprir para receber e manter a vida eterna (a salvação) é “crer no Senhor Jesus Cristo” (At 16.31, cf. Jo 3.18, 20.31; Ef 2.8). Ela também ensina que o crente não perde a vida eterna e cai em condenação, quando ele ou ela peca (Jo 3.18, 5.24, Rm 8.1-4, 33-39).

SAÚDE GARANTIDA

A interpretação literal de Dake de passagens como Isaías 53.5, João 14.14, e 3 João 2 resultado do fato de que Jesus carregou nossas enfermidades, bem como o nosso pecado na expiação, portanto, a cura física pode ser apropriada pela fé da mesma forma que o perdão. Ele afirma,

“Todo mundo pode ficar curado agora - agora mesmo pela fé – tanto quanto ele pode ser perdoado dos pecados agora. A razão pela qual nem todos são curados é porque eles não acreditam nessa verdade e não a aceitam assim como aceitam o perdão dos pecados ... Tanto o perdão como a cura foram expiados na cruz, mas eles são apropriados individualmente pela fé quando se reúne as condições necessárias de arrependimento e fé na expiação. Todo o inferno não pode privar-lhe dessas bênçãos se você se recusa a permitir que forças demoníacas o derrote.”56

O problema com o equacionamento da doença física com o pecado na expiação é que se uma pessoa não tem fé suficiente para ser curado, então essa pessoa não tem nenhuma garantia de que ele ou ela tem fé suficiente para ser salvo. Hank Hanegraaff salienta, “se ambas. cura e salvação, estão incluídas na [expiação], elas devem ser acessadas da mesma maneira. E se alguém não tem fé suficiente para ser curado, segue-se que não terá fé suficiente para ser salvo. Portanto, aqueles que morrem fisicamente, devido à falta de fé, também devem acabar no inferno, pela mesma razão.”57

Na opinião de Dake, a falha em ser curado reflete a descrença intencional e a desobediência às leis de Deus e da natureza.58 Ele ainda chama isso de pecado da doença: “Torna-se pecaminoso por ter em nossos corpos aquilo pelo qual Cristo já morreu para nos dar.”59 Esta visão não é apenas antibíblica, acrescenta a culpa a uma pessoa que já está sofrendo de uma doença ou enfermidade. Uma pergunta a considerar, se Dake acreditava que a sua própria incapacidade de ser curado da doença de Parkinson, que eventualmente levou a sua vida, era um pecado devido à incredulidade.

Dake argumenta que negar a sua visão resulta na conclusão absurda de que Deus quer que sejamos doentes: “Vamos dizer que é a vontade de Deus vivermos em corpos doentes e enfermos, do que livres e saudáveis?60 Este é um falso dilema. Não é o caso de que Deus queira curar a doença agora, ou que Ele prefira a doença do que a saúde; há uma terceira opção: Deus derrotará a doença e a enfermidade no futuro. Paulo, de fato, afirmou que o mundo inteiro está esperando a redenção completa e final dos efeitos da queda, o que inclui doenças e enfermidades (Rm 8.18-25).

O tema recorrente de Dake da saúde garantida pela confissão positiva da fé é acompanhado por seu tema de prosperidade garantida.61 Estas são doutrinas padrão entre os mestres da Palavra da Fé e podem devastar a saúde de uma pessoa, as finanças e a fé se seguidas.

PERIGO ADIANTE

A visão de Dake das doutrinas cristãs essenciais, às vezes, tem mais em comum com a teologia das seitas do que com a teologia cristã histórica. Suas obras, apesar de conterem muitas verdades bíblicas, incluem vários outros ensinamentos antibíblicos e bizarros, tais como: Deus vive em uma mansão em um planeta material chamado Céu e é invisível para nós só porque ele está tão longe que não podemos vê-lo,62 os seres humanos são miniaturas de Deus em atributos e poder,63 Adão substituiu Lúcifer como governante da terra,64 os germes da doença estão relacionados aos demônios,65 Deus quer que as raças permaneçam separadas como eram originalmente, e será na eternidade.66

É lamentável que as obras espúrias de Dake sejam tão bem-vindas nas igrejas e livrarias cristãs!

NOTAS

1. Stanley M. Burgess and Gary B. McGee, Dictionary of Pentecostal and Charismatic Movements (Grand Rapids: Regency Reference Library, 1988), s.v. “Dake, Finis Jennings.”

2. Finis J. Dake, “A True Story of a Magnificent Gift,” Dake Publishing, http://www.dake.com/true.html.

3. Burgess and McGee.

4. “Rev. Dake to Preach until Term Starts,” Waukegan (Illinois) News-Sun, February 10, 1937, 1.

5. Ibid.; see also Burgess and McGee.

6. “Zion Minister Fails to Post Mann Act Bail,” Chicago Daily Tribune, May 28, 1936, 17.

7. “Rev. Dake to Preach until Term Starts.”

8. “Flock Absolves Petting Parson, but Jail Awaits,” Chicago Daily Tribune, February 10, 1937, 3. Some suggest that this commentary became the notes for The Dake Annotated Reference Bible.

9. Burgess and McGee.

10. Richard Love and Jennifer Bryon Owen, “The Pentecostal Study Bible,” Charisma and Christian Life, January 1988, 39.

11. Finis Jennings Dake, foreword to God’s Plan for Man [hereafter GPFM] (Lawrenceville, GA: Dake Bible Sales, 1949).

12. Finis Jennings Dake, The Dake Annotated Reference Bible [hereafter DARB] (Lawrenceville, GA: Dake Bible Sales, 1963).

13. Burgess and McGee.

14. Keel Germaine, “Dake Bible Fills Niche,” CBA Marketplace, January 1997, 12.

15. Love and Owen, 39.

16. Jimmy Swaggart, “In Memory: Finis Jennings Dake 1902–1987,” Evangelist, September 1987, 44.

17. Larry Ollison, e-mail correspondence with author, July 25, 1997.

18. David G. Roebuck, e-mail correspondence with author, July 23, 1997.

19. GPFM, 37.

20. Ibid., 47. See foreword to GPFM; preface to DARB.

21. Ibid., 56.

22. Ibid., 57.

23. Ibid., 52.

24. Norman Geisler and Ron Rhodes, When Cultists Ask (Grand Rapids: Baker Book House, 1997), 23.

25. GPFM, 56–57.

26. Lewis Sperry Chafer, Systematic Theology, vol. 1 (Grand Rapids: Kregel, 1993), 181–82.

27. GPFM, 51

28. Ibid., 53.

29. DARB (New Testament), 280.

30. GPFM, 50.

31. DARB (New Testament), 280, emphasis added; GPFM, 65, 498.

32. The Greek and Latin Creeds, vol. 2, The Creeds of Christendom, 6th ed., ed. Philip Schaff (1931; repr., Grand Rapids: Baker Book

House, 1985), 66.

33. Henry Thiessen, Lectures in Systematic Theology, rev. ed. (1949; repr.,Grand Rapids:WilliamB. Eerdmans PublishingCompany, 2001), 89.

34. DARB (New Testament), 57 n. d, 93 n. r.

35. Ibid., 1 n. a; GPFM, 377.

36. GPFM, 496.

37. Ibid., 60.

38. Norman L. Geisler, In Defense of the Resurrection (Clayton, CA: Witness, 1993), 122–29.

39. William Lane Craig, Knowing the Truth About the Resurrection (Ann Arbor, MI: Servant Books, 1981), 108.

40. Ron Rhodes, Christ Before the Manger (Grand Rapids: Baker, 1992), 195.

41. GPFM, 387.

42. Ibid., 398.

43. Ibid.

44. DARB (New Testament), 165 n. h.

45. Ibid., 163 n. e.

46. Ibid., 226, emphasis in original.

47. GPFM, 343.

48. Ibid., 433.

49. DARB (New Testament), 107.

50. Ibid., 67.

51. Ibid., 100.

52. Ibid., 313.

53. GPFM, 342, emphasis in original; cf. 610. See also, “Redemption Fallacies Refuted,” DARB (Old Testament), 625–26.

54. DARB (New Testament), 261 n. m.

55. DARB (Old Testament), 625–26.

56. GPFM, 946.

57. Hank Hanegraaff, Christianity in Crisis (Eugene, OR: Harvest House Publishers, 1993), 250.

58. GPFM, 262.

59. Ibid., 944–45.

60. Ibid., 946.

61. Ibid., 217–22.

62. GPFM, 57–58.

63. DARB (Old Testament), 548.

64. GPFM, 118.

65. Ibid., 241.

66. “30 Reasons for Segregation of Races,” DARB (New Testament), 159. For Dake Publishing’s account of their attempts to rectify

a controversy with Frederick K. C. Price regarding this passage, see “Answering the Charge of Racism,” Dake Publishing, http://www.dake.com/ position.html

* Notas do tradutor.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Pequei e agora?

“Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça.” (1 João 1.9).
O pecado é o grande mal da humanidade. Desde que Adão desobedeceu a Deus, introduzindo o pecado na raça humana, vivemos debaixo da maldição. Já dizia o salmista: “Eis que em iniqüidade fui formado, e em pecado me concebeu minha mãe.”  (Salmos 51.5). E escreveu o apóstolo Paulo: "Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus"  (Romanos 3.23).
Todavia, Jesus Cristo veio buscar e salvar o que se havia perdido (Lucas 19.10). A solução para o pecado está em Jesus Cristo que tomou sobre si todas as nossas iniquidades. “O castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados” (Isaías 53.5). Para se receber o perdão dos pecados basta arrepender-se, converter-se de seus maus caminhos e voltar-se para o Senhor de todo o coração. "Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados, e venham assim os tempos do refrigério pela presença do SENHOR"  (Atos 3.19).
Mas, já sou crente, já me converti, e cai em pecado, o que fazer agora? Vou ser disciplinado pela minha igreja, afastado da comunhão dos santos e ser considerado um desviado da presença do Senhor?  Bem, tudo isso pode ocorrer, mas o mais importante de tudo é a restauração da comunhão com Deus. A igreja pode disciplinar, afastar da comunhão, impor algum tipo de castigo, como é comum em algumas igrejas, mas tudo isso não tem nenhum significado se o crente pecador não se arrepender, não confessar ao Senhor e não pedir perdão pelo pecado cometido. "O que encobre as suas transgressões nunca prosperará, mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia."  (Provérbios 28.13). "MEUS filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo."  (1 João 2.1).
Vejo com pesar o tratamento dado a alguns crentes, que infelizmente caem em pecado. Não se trata de “passar a mão” sobre o pecado, mas de dar o remédio, a solução para aqueles, que por algum motivo, fracassaram, caíram, erraram (pecaram mesmo). Não há pecado que não tenha perdão, exceto o pecado contra o Espírito Santo, mas creiam-me, somente um verdadeiro apóstata chega a esse ponto. "Vinde então, e argüi-me, diz o SENHOR: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, eles se tornarão brancos como a neve; ainda que sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão como a branca lã."  (Isaías 1.18).
Há casos escabrosos, é verdade, mas “o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo o pecado” (1 João 1.7).
Você pecou? Arrependa-se hoje mesmo e volte-se para o Senhor de todo o coração, pois Ele irá restaurar a sua vida e perdoar o seu pecado.
“That’s it”.